Por outras terras…

Voltando aos livros de que tanto gosto, minha escrita acabou sendo influenciada por eles. Assim, em vez de falar sobre o disco, te chamo a pensar em uma narrativa junto comigo. (06/01/2021 – Qua.)

Far Away From The Sun – Sacramentum (1996)

Entremos na experiência, vamos tentar cair de cabeça na atmosfera promovida pelo álbum… Imaginemos que houve um momento de tremenda escuridão passando pela terra. E aquele castelo (aquele mesmo, o da capa) foi a última morada que lhe restou, em meio a um imenso paredão de montanhas. Você se aproxima e toma consciência de que ali há algo mais, o próprio gelo conversa não apenas com seu corpo, mas também com a sua alma. Indo lá no interior do seu espírito e te transformando em algo mais, o ambiente te prepara para que os seus olhos logo se abram e saiam da incredulidade: você está longe demais do sol, longe da luz, longe de tudo aquilo que pertencia a você. Nada mais te pertence, e o que você é? Com este pensamento, seus olhos se abrem ao som estridente das guitarras que permeiam o gelo cortante à sua volta. Você ouve Fog’s Kiss:

Fog’s Kiss – Sacramentum

Já de fisionomia mudada, todo o seu corpo se adapta ao frio que lhe invade e você está caminhando com pés que ainda não sente como se fossem seus, mesmo sabendo que eles lhe pertencem. Ah, meu caro leitor, eu já não consigo entender como você consegue trilhar esta terra tão árida e pouco convidativa… eu não seu como você chegou aqui. Mas sei que a escadaria pela esquerda será o seu caminho, através do corredor formado pelas pedras à beira da montanha. O cenário é vertiginoso, no entanto, as névoas já cobrem tudo lá em baixo e você não consegue perceber o que é a terra e o que são as nuvens. Sentindo a tentação de caminhar para frente, mesmo sabendo que você pode cair num abismo infinito, o seu ímpeto é o de seguir em frente, pisando as nuvens até a porta do castelo, que se abriu misteriosamente apenas para você e mais ninguém. A solidão parece querer que você esteja nela… É preciso caminhar, pise nas nuvens! Sim… Continue caminhando e ouça o som que vem dos trovões; ouça When The Night Surrounds Me:

When The Night Surrounds Me – Sacramentum

Tudo parece maior que você jamais viu na sua vida; tudo parece terrível, mas, após tanto tempo, tão longa viagem… há algo aqui que é reconfortante. Este cheiro sem odor, apenas o hálito das sombras e do congelamento, que parecem parar o tempo… Mas eis que a porta esta bem a sua frente. O que fazer? Ainda há algo na sua alma que clama por caminhar de volta, mas para onde? O que restou após a grande escuridão?Mas eis que ouve-se o som forte de um trovão. As ondas sonoras vem até você, desfazendo as nuvens que foram deixadas para trás no caminho. Como um monstro, você pode sentir o som avançando sobre você, abrindo sua grande boca em sua direção, como se fosse uma parte de um grande organismo que quisesse eliminar uma reles bactéria. Você se sente extremamente pequeno, acovardado e lança um último olhar incerto para o interior do castelo.

Lá já não está mais obscuro, há alguma luz vermelha vindo lá do interior. Vermelha como a dor da paixão mais épica; vermelha como o sangue que, agora você nota, voa da sua pele e entra no castelo, formando espirais no ar, como fios delicados de um sedoso pano oriental… Você segue, entra ali e a porta se fecha atrás. A luz vermelha vai se escurecendo, mas ainda permanece nítida… Sua audição é dominada por um grito gultural e seus olhos se expremem ao máximo. Eles choram as últimas lágrimas do passado. Você ouve Obsolete Tears:

Obsolete Tears – Sacramentum

Behold what eternity shows
our mortal eyes,
Violet gleams upon

the nightsky.
I cry the obsolete tears.

OBSOLETE TEARS – Sacramentum

E então? Conseguiu chegar até aqui? Excelente! Espero que você possa acompanhar bem as músicas do álbum e entender um pouco mais através dessa pequena estorinha aí acima. Veja algumas fotos do material do álbum:

Ouça completo no YouTube:


Cruel Magic – Satan (2018)

Contemplar visões extraordinárias; estar de frente para O Absoluto; prostrar-se diante de uma outra realidade… coisas que o ser humano almejou por muito tempo e muitos até conseguiram. Mas e se, no aqui e no agora, nosso coração pudesse estar repleto destas mais profundas contemplações? Eis que esta poderia ser a história de um sacerdote que sobe uma montanha, que, em muito, lembra a grandeza de seu deus. Ele sabe que seu deus, porém, é muito maior, tão maior que abrange todo o mundo. Entretanto, o inocente serviçal do espírito, caminha sem saber que o espera algo muito mais extraordinário que um simples caminhar pelos bosques da serra. Em breve o caminho é interrompido pela mata fechada, algo que ele nunca reparara antes. Não há outra via, ou dá meia volta ou prossegue. O que está do outro lado é muito importante para ser abandonado, é sua missão de vida, é seu conhecimento interior: portanto, o sacerdote aperta o passo, rezando para sua divindade e é abraçado pelas trevas. Já um pouco mais no fundo da floresta, é possível ouvir sons de animais bem ao longe, e a luz do sol penetra em pequenos feixes, apenas. Lá ao fundo, entretanto, vem uma onda sonora forte, sacudindo o chão e as raízes das árvores de épocas ancestrais: o sacerdote é atingido em cheio por Into The Mouh of Eternity:

Into The M. of Eternity – Satan

Caído ao chão, como se tivesse sido atacado por um animal feroz, ele procura descrer seus olhos. Mas a verdade é muito sedutora para ser ignorada por alguém que ainda não transcendeu o corpo. Os olhos se aguçam e os ouvidos se imergem no som elétrico e nos rugidos de uma bateria quase tribal. Apesar do terror com que nosso personagem atravessa a situação, o que suas pupilas veem é a luz própria da floresta, como se o chão e as árvores jogassem para fora de si os anos e anos de luz solar acumulada. A mata festeja! Cada animal que passa ao longe, rapidamente, é como um vulto um pouco mais colorido, mais saturado pela velocidade das batidas e dos solos de algum instrumento vindo de outra realidade. Nosso sacerdote se levanta com dificuldade e caminha, não mais na direção do seu objetivo anterior, mas busca ainda mais o som que chega até ele e parece vir de todos os lados possíveis. Desorientado em meio a mata, ele acaba distinguindo um cheiro que ele jamais imaginou sentir com tamanha força: cheiro de água. Um pequeno filete deste líquido maravilhoso o guiou até um rio que rugia com a força de mil feras. Próximo ao leito, um cajado rústico repousava. Mesmo com medo, o sacerdote não pode controlar suas mãos e tocou o objeto. Ouviu-se a cortante introdução de Cruel Magic:

Cruel Magic – Satan

De posse do cajado, uma nova perspectiva se abriu para aquele homem. Ele via bem na sua frente toda uma nova realidade e seu cérebro, lá no fundo de seu pensamento, ainda era capaz de se perguntar: valeria a pena tentar atravessar a floresta? Pra quê? A missão que ele tinha do outro lado já não parecia tão importante. O que ele havia deixado para trás já não parecia tão interessante. Não! Todos aqueles momentos de sacrifício e de entrega pareciam que tinham ganho outro destino: não mais o deus adorado, mais o trovão que soava do som mais grave destas notas musicais misteriosas, ou os vocais operísticos que pareciam evocar uma realidade mística, ao mesmo tempo que idílica. Era como se ele estivesse viajando para outro tempo, com os próprios pés; como se ele pudesse escolher para qual época ir. O tempo havia se dilatado ao som daquela música tão enfeitiçadora. Eis que o sacerdote estava, naquela floresta, de frente para o seu próprio Absoluto e ele se sentia como se estivesse voando, sendo suspenso pelas plantas e elevado pela terra. Para cima ele ia, vendo ao seu lado a água do rio formando um elevador para o céu. O sacerdote podia ver a luz do sol vindo em sua direção, tão bela e tão intensa… Ele desejava intensamente se tornar um com o sol. Mesmo que com isso ele pudesse perder a própria vida… E foi perto dos seus últimos momentos de extremo prazer, que ele ouviu as melodias dos violões de Mortality:

Mortality – Satan

Something took me
with no warning.
I know not why or
to where I’m bound…
Mortality!
Living the life of a fly.

MORTALITY – Satan

E eis que chegamos a mais um conto. Espero que você tenha conseguido acompanhar bem e agradeço a sua estadia até este momento. Mas não se vá, ainda, sem ler o próximo. Fique mais um pouco.

Ouça completo no YouTube:


Empire Of The Blind – Heathen (2020)

Houve um tempo, muitos devem se lembrar, em que a ascensão da anticiência era encarada como uma grande piada. Mas também houve tempos onde atitudes de obscurantismo foram fortes na história da humanidade. O fato é faz parte do ser humano essa negação dos fatos, mesmo postos bem na nossa frente. Sim… É uma característica muito comum nossa, mas que não deixa de ser estranha, por vezes absurda. Há quem note este tipo de influência, este tipo de condição bizarra que é a cegueira que as pessoas impõem aos próprios olhos. E esta aqui talvez seja o menor conto destes 3 que vem acompanhando os discos. Não faria sentido entrar em muitos detalhes sobre um acontecimento carregado do fardo do cotidiano e do peso do nosso tempo. Mas é preciso falar, é preciso pôr para fora aquilo que está dentro de nós. Você também não sente vontade de fazer isso as vezes? Se você olha em volta e vê o tanto de tolice e palavreado sem sentido que aparece por aí, eu creio que sim. E assim também agia o nosso personagem, o X (que também pode ser “a X” sem problema algum). Direto ao ponto, o X não tinha idolatria por religiosos, muito menos por políticos. Ele entendia que havia algo muito mais grave acontecendo… Era a era da cegueira, cantada na música Empire Of The Blind:

Empire of The Blind – Heathen

X era uma pessoa comum como qualquer um de nós. Não importa qual era o emprego dele, basta que você saiba que ele não era rico, não tinha nascido num berço de ouro e o filho que ele quisesse ter estaria bem longe de sequer ter um berço. X tinha uma revolta no coração pela situação em que o seu país estava e o ódio se tornava cada vez mais forte. Era só ver na TV ou na Internet os políticos prometendo suas falácias e ele já sentia enjoo por estar vendo mais um repeteco do que sempre aconteceu. Mas X não quis parar apenas no discurso de um cidadão comum. A verdade é que este guerreiro moderno teve seus dias de luta muito mais fortes que ele jamais pensou que poderia sustentar. A luta dele não foi contra um grupo político específico; ele não fez como qualquer cidadão que apenas ficava reclamando e volta e meia movia a bunda do sofá para buscar cerveja e fechar o bico. De fato, X saiu do esgoto onde morava e veio para a superfície. Sua verdadeira intenção era lutar contra aquilo que domina todas as relações humanas: a ganância do sistema; os ardis do capital. Mas como atacar o invisível ? Como se revoltar contra o que era maior que ele ou qualquer ser humano? Ele ouvia nos motores de cada carro da cidade enorme que o engolia: os pesados riffs vindos de The Blight:

The Blight – Heathen

Mesmo com toda sua motivação, ele saberia que não poderia vencer. Entretanto, foi. Antes de atravessar a calçada de onde viera, queimou todas as suas contas pendentes. Todos os boletos haviam virado cinzas. Aquela seria sua última tentativa. Com a mochila nas costas, certo de que não devia mais nada a ninguém, X encontrou inspiração e caminhou para a fronteira da grande cidade. Queria, de qualquer forma, sair. Estava disposto a fazer tudo para ter uma vida nova: aquela cidade tragava qualquer ser humano e ele não queria ser mais um. No caminho, ele teve que encarar suas dúvidas, fixadas no asfalto como as faces de demônios. A mente de X se juntava à fome vinda de um buraco no seu estômago e ele sentia seu corpo enveredar pela loucura. Um pedaço de pão endurecido o sustentava para não cair no chão. Ao longe, à direita, ele chegou a ver um assalto e ninguém pôde fazer nada: todos as estavam sem reação contra a violência. Distante, à esquerda, X viu também um grupo de policiais despreparados enfrentando um tiroteio, sem qualquer técnica. Aparentemente, um policial havia sido até baleado. Mas X continuava a caminhar em linha reta, até chegar aos grandes muros da cidade. Ali, sem perceber que estava chorando, ele abriu sua mochila. Do vento que vinha por cima do muro, ele podia sentir os leves arpejos chamando ele para o exterior, ele ouvia Shrine of Apathy:

Shrine of Apathy – Heathen

I’m all alone
Inside this shrine
I’ve built to apathy

SHRINE OF APATHY – Heathen

Em meio aos livros na mochila, ele tirou uma marreta e, em certa parte mais frágil do muro, acertou vários golpes. Um alarme soou bem longe, mas ele sabia que a segurança estava ocupada demais para chegar ali tão rápido. Tendo certeza de que ele não tinha deixado nada para trás, que o sistema havia sugado sua casa, sua família e suas paixões, X entrou com sua mochila pelo buraco que havia sido feito. Levava consigo apenas a marreta e os livros e andava rápido. O barulho da cidade já ficava para trás e à tarde ele já estava no meio da floresta, ouvindo o som de uma cachoeira, esquecida ali desde o tempo de seus avós. Já havia se esquecido do som das pessoas ignorantes e seus olhos brilhavam com aquela visão. Finalmente, podia sentir paz e, extremamente enfraquecido, caiu com o corpo na cachoeira. Nos seus últimos momentos, ele pôde ouvir a natureza ressoando as notas finais de uma vida, como se estivesse beijando a face deste guerreiro urbano.

Monument to Ruin – Heathen

Ah… Então temos mais um conto finalizado. Este com um aspecto mais urbano, como você viu. É claro que este texto não é uma obra literária, nem tem a pretensão de ser. Basta que se exorcizem alguns pensamentos, e voila!

Ouça completo no YouTube:


+duas faixas

1 . Sinônimos – Zé Ramalho

Como não poderia deixar de ser, aqui estamos em mais um ano, firmes e fortes na divulgação de artistas nacionais. Neste período de fim de ano, o canal do André continuou produzindo um ótimo conteúdo para nós. E aqui temos uma bela versão para a música do mestre Zé Ramalho, confira:

Cover por André Fricks

E não deixe apoiar os artistas nacionais que você curte!

2 . Munity – CC Dust

Em breves palavras, como para muitas pessoas, o ano de 2020 tinha mais é que ter ficado para trás mesmo. Todos aqueles que perdemos e todas as oportunidades jogadas fora no nosso país, começando pelo desemprego e se agravando muito com a pandemia e o desgoverno no Planalto… Enfim, todas estas causas de estresse puderam ser, por um pequeno instante, varridas da minha mente pelas melodias dançantes desse grupo americano. Espero que a faixa possa te ajudar também, assim como me ajudou:

Munity – CC Dust

E com isso, creio que me despeço desta postagem, me preparando para uma próxima. Talvez a seguinte não seja tão experimental quanto essa, mas, depois de retornar feliz ao meio aos livros, seria difícil que minha escrita não fosse influenciada de alguma forma. Espero que você esteja bem e possa encontrar algo de bom neste material. Grande abraço e até a próxima. ✌

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