You Wouldn’t Anyway – Loomer (2013)

Seria inevitável que Márcio insistisse em seus sonhos, mesmo após tanta crise e desentendimentos. Na verdade, quando se é acostumado desde cedo a não desistir, você acaba internalizando isso e esquecendo as origens de tal pensamento na idade adulta. Assim, sem saber que seus pensamentos vinham da infância, ele caiu numa ideia estranha e talvez perigosa: sair para qualquer lugar que não fosse sua casa.
De alguma forma, tudo até ali vinha parecendo cansativo demais, especialmente pela solidão. É que, para manter sua felicidade, Márcio acabou se separando de diversas pessoas ao longo de sua vida. Sua casa não tinha qualquer teia de aranha e o mínimo resquício de pó havia sido retirado. Mesmo assim, casado com ele era com a ideia de ser feliz, decidiu perseguir sua louca ideia, pois acreditava que a vida precisava de um sacolejo.
Não seria difícil entender o que se passou com Márcio no mundo lá fora. É uma terra muito complicada, repleta de perigos e armadilhas traiçoeiras. O mundo não é colorido; o mundo não é verdadeiro com os princípios humanos. Isto é coisa simples que todos sabem ou poderiam adivinhar com facilidade. O que não se poderia prever tranquilamente era que Márcio conseguiria superar todas as dificuldades que haviam se entreposto em seu caminho para um destino completamente incerto.
De fato, passando por abismos enormes, verdadeiras gargantas para o fim do mundo, nosso protagonista de aparência franzina e vida inexperiente conseguiu obter sucesso sem sofrer um único arranhão. Era um homem de sorte ou um sujeito de fibra? Nós, que vivemos no capitalismo selvagem onde todos são empreendedores, talvez estejamos mais propensos a aceitar a segunda opção – ele teria dobrado o mundo por força própria. Todavia (como o leitor já deve ter notado que nosso interesse não está no fim da jornada, mas no caminho em si), há um simples causo no meio destas viagens que se destaca e pode contrariar esta nossa ideia.
Certa ocasião, aconteceu que Márcio decidiu parar para observar um dos abismos pelos quais ele havia de passar. Parecia apenas mais uma de uma série de altos e baixos. Neste momento, sem dar por si, ele acabou pisando em falso e salvando-se apenas por ter, num rápido reflexo, se pendurado na beira do precipício. Naquele momento, já sem sua mochila, tragada pelo abismo, Márcio não teria muitas chances.
O terreno pelo qual ele vinha fazendo sua travessia não era de todo deserto. Uma vila resistia ao longe se impondo contra a natureza do local. Por alguma ocasião do destino, as roupas que Márcio utilizava haviam chamado a atenção dos moradores daquela região, fazendo com que uma mulher curiosa o perseguisse por alguns metros, sempre observando de longe. E eis que, no abismo, como Márcio foi salvo? É claro, pela ajuda da mulher e algumas outras pessoas que vieram pela chamada dela.
Neste momento, a única reação de Márcio foi uma respiração profunda, tão simples e deliciosa quanto a inspiração do nascimento ou a introdução de Road to Japan:
Após o resgate de Márcio, é trivial dizer que ele encontrou um novo lar. Passou o restante de sua vida vivendo em meio àquelas simpáticas pessoas, moradores da vila próxima ao abismo.
Mas este não é o objetivo essencial deste conto: na verdade, talvez não haja um objetivo específico. O interessante é apenas deixar uma pergunta, aquela boa interrogação atrás da orelha, pulando como uma pulguinha: é melhor estar só ou bem acompanhado?
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Há quem diga que a pandemia está passando, o que espero que seja verdade. Mas, de fato, ela ainda está aí e Loomer foi uma das melhores companhias que tive nesse período. Já faz tempo que descobri esta banda e nesta postagem mostro as maravilhas que descobri com o disco You Wouldn’t Anyway, que a banda lançou em 2013.
Vindos de Porto Alegre, os integrantes da banda entregam neste primeiro disco completo algumas das mais importantes pérolas do rock alternativo que eu já tive a oportunidade de ouvir. É bem raro ver alguém misturar influências que vão de Joy Division à Sonic Youth de uma forma tão concisa e particular. Tudo cabe no universo que eles desejam construir e, não à toa, têm projeção internacional.
Caso você queira uma resenha caprichada deste álbum, recomendo visitar o site da midsummer madness (neste link).
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