Ensaio Pra Destruir – Fernando Motta (2021)

Era um belo dia de sábado. Os raios de sol cumpriam seu papel, dourando as árvores verdes e os prédios diversificados, dos arranha-céus às casinhas de telha colonial. Os pássaros cantavam à natureza e aos humanos com a alegria de quem parece anunciar as notícias de um dia promissor. Porém, a atenção das pessoas que passavam pela rua, aqueles reles corpos humanos, pouco estava interessada no alvissareiro cantar dos pássaros. Uma curiosa notícia estampava os jornais, puxando, como um buraco negro, os olhos dos transeuntes.
Não era notícia trágica, nem a morte de algum político odiado pela população: lá estava estampado o rosto de um homem de camisa regata, com uma garrafa de cachaça na mão esquerda e a mão direita com o dedo indicador em riste. Toda esta pose do cidadão indignado confirmava o que era dito no título do jornal: “Cidadão Confirma: Acabou-se a Alegria”. Logo abaixo era possível ler melhor: “Acaba-se o carregamento de cachaça em mais de 20 cidades do país”.
O que seria uma simples notícia peculiar nos jornais da cidade, aos poucos cresceria num dos mais estranhos eventos que os moradores iriam presenciar. Passou-se o tempo e muitas pessoas que haviam se esquecido daquela notícia a relembravam com bastante rapidez assim que percebiam o caos que havia se instaurado.
Pelas ruas da cidade, muitos bares haviam fechado suas portas e os ex-bêbados pareciam caminhar pelas ruas como verdadeiros sedentos em busca da “água que passarinho não bebe”. O fim da cachaça era apenas o estopim para o sumiço de todo tipo de bebida alcoólica dos mercados e armazéns. No início, pensou-se que aquilo seria para o bem da saúde humana, não sendo possível que a sociedade desse atenção para a voz dos bêbados. Mas, ali, diante da ausência de uma boa cervejinha para o fim de semana e várias outros itens nocivos (como açúcares e agrotóxicos), muitas pessoas passaram a se revoltar contra o prefeito, contra as autoridades, contra o mundo.
Era muito difícil encontrar algum culpado para toda a situação. Mas, como é possível notar na história da humanidade, não há nada que não se possa resolver com algum diálogo, mesmo que fossem os diálogos acalorados de quem não tinha algo com que relaxar. De alguma forma muito estranha, tudo havia simplesmente sumido, sem qualquer explicação.
Entretanto, não era precisamente este o caso que chegaria a chocar as pessoas. Nesta nova sociedade que vinha se construindo na completa ausência de elementos viciantes, um dos principais problemas a serem resolvidos foi o completo estresse daqueles que precisava continuar enfrentando o árduo trabalho do dia-a-dia sem ter como relaxar. Sim, é complicado.
Esta é a história de uma sociedade muito parecida com a nossa, que enfrentaria diversas revoltas, fogo nas ruas, fogo nas casas, fogo nos bancos, fogo o gás e “Kabum!”. Lá estava uma nova geração chocando a todos: uma geração que, para não se estressar, preferia observar o mundo e se afogar nas obras de arte.
Reza a lenda que toda esta sociedade se destruiu em uma guerra civil, se reergueu e iniciou um culto à cachaça assim que importantes cientistas conseguiram se reunir novamente. Mas a cachaça pouco importa. O que interessa é que ele jamais puderam esquecer a arte feita no período em que eles estavam sóbrios. Hoje em dia, se eles bebem com ainda maior força e o capitalismo consome com mordidas ainda mais despedaçantes, é a arte dos sóbrios que eles apreciam.
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Ouvir Ensaio Pra Destruir é uma das experiências mais loucas que já tive. Este disco veio como um verdadeiro meteoro, ou um objeto espacial enigmático ao longe aconchegante de perto. Navegando ao longo dos mundos e das eras, este álbum veio a cair no Brasil, vaporizar Belo Horizonte e me encontrar caído no Rio.
Com a produção mágica de Vitor Brauer (que também é creditado como baterista e baixista), este disco é uma viagem genial por um universo de loucura, relaxamento, paixão e desapego. Musicalmente intimista, conseguimos entrar no universo de distorções gritadas e poesias que soam quase como conversas ao pé do ouvido. A formação conta com: Fernando Motta (composições, vozes e guitarras), Mafius (sintetizador), João Viegas (piano) e a participação de Apeles (piano e mellotron). Ou seja, mais grandes artistas direto para a minha lista de conhecimentos. Uma grata e impactante surpresa!
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