Noites Infinitas – Wry (2020)

Você nunca sabe o que vai encontrar até virar a próxima esquina. Mas eis que você vira para a direita e encontra alguém dançando no intervalo do sinal de trânsito. Você certamente tem mais o que fazer, ou talvez não – talvez seja apenas o horário de almoço que a empresa ainda permite que você tenha. Mas olhar a dança parece mais interessante que fazer qualquer outra coisa agora.
De alguma forma absurda você perde toda a sua criatividade para outra coisa que não seja observar aqueles passos, ao mesmo tempo sólidos como um tijolo firme e maleáveis como a água de uma cachoeira por entre as rochas. Aquela dança é para romper o asfalto, romper o cinza e quebrar a cidade.
Num pequeno momento que parece quebrar a eternidade daqueles passos, você olha em volta e percebe que há muitas pessoas ali. Ninguém percebeu como eles chegaram, eles mesmo não saberiam dizer como haviam parado ali. Todo mundo nas calçadas, apenas observando aqueles cabelos se esvoaçando na faixa de pedestres, aquelas mãos expressando ambiguidades sexuais, emocionais e essencialmente humanas.
Todos parados, mesmo dentro de seus carros imóveis, numa última esperança de verem os passos que parecem elevar o chão e rebaixar o ar carregado de vírus, perigos e impurezas. A comoção que aqueles movimentos, que agora são apenas linhas rápidas passando diante dos olhos do mundo, te emocionam e fazem seus joelhos descerem ao concreto da calçada.
Os segundos passam como uma verdadeira eternidade, é difícil traduzir qualquer pensamento em palavras. A dança fica mais rápida, as roupas vão se moldando ao corpo e ao vento, porque carne e asfalto vão se tornando um só diante dos seus olhos. É como uma estranha espécie de milagre se transfigurando bem ali, há poucos metros.
Seja homem ou mulher, seria dificílimo não se sentir tocado pelas melodias silenciosas dos passos daquele bailar tão isolado, tão enclausurado no seu próprio espaço, como se contrariasse o mundo e dobrasse o universo a seu favor…
… De repente tudo some como numa fumaça completamente branca. O bailado virou um giro extremo que subiu e flutuou por milésimo de segundos que ficaram cravados atrás da sua retina. Depois desapareceu e, quando você deu por si, todas as pessoas haviam saído do transe em que se encontravam.
Por um instante, elas quase se atropelaram, quando decidiram voltar a andar, ainda meio desorientadas. Mas você sabe que elas poderiam voltar à hipnose de antes se alguém com vontade suficiente, alguém que houvesse se sentido tocado o bastante tomasse de assalto o espaço do asfalto e recomeçasse o ritual urbano.
O sinal fica verde.
Você tira seus calçados e gira na faixa de pedestres (?).
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Já falamos do Wry aqui no blog (neste link) e quem nos acompanha já sabe que esta é uma das melhores bandas de Rock da atualidade – sim, pois o Brasil é o mundo também.
Então, para além das apresentações comuns, este disco de 2020 é, sem sombra de dúvidas, uma das mais interessantes experiências do ano. Aqui e ali, consegui enxergar influências dos anos 80 neste disco que soa bem mais direto que o anterior. Na verdade, inicialmente, eu senti uma certa saudade das viagens sonoras de “She Science”, mas, logo após a primeira audição, lá estava eu, completamente aclimatado ao baixo pulsante de Man In The Mirror ou às baterias e guitarras de Uma Pessoa Comum.
Se você não ouviu ainda, desfaça tal sandice e clica logo aí abaixo 😄 :
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