Thin Black Duke – Oxbow (2017)

Imagine entrar num covil de cobras, ou qualquer outro ser peçonhento que lhe dê arrepios de medo. Em sã consciência, ninguém faria isto por conta própria, creio eu. Entretanto, quando uma obra de arte é capaz de proporcionar um ambiente seguro para tal situação, é difícil resistir a não cair de cabeça. Precisamente esta é a situação a que este disco nos incita, aquele tipo de coisa que você percebe e se pergunta “por que estou aqui?”.
Estranho, mas é precisamente na lírica de contrastes que Thin Black Duke ganha toda a sua maestria. Tudo aqui parece estar numa eterna e feroz batalha e você, ouvinte, é apenas um espectador dos fenômenos – quando não lhe sobra também um tabefe nas orelhas. E basta você pensar que um elemento musical já venceu o outro, ou que um refrão está prestes a se estabelecer que a quebra é retomada. É ela, afinal, quem reina imperiosa sobre as melodias. Ouça, por exemplo, a faixa inicial, “Cold & Well-lit Place”:
O conteúdo lírico do disco trata de forma bastante poética (quase impressionista, pelo foco menor na verossimilhança e maior nas sensações) da nossa entrada num cenário extremamente esquisito, mas também bastante familiar. O tal Duke que serve de título para o disco (e referencia um dos personagens mais controversos da lendária carreira de David Bowie) é o mestre que diz amar tudo o que não lhe diz respeito, uma vez que ele próprio, na realidade, tem amor apenas pelo dinheiro que usa para suplantar as pessoas.
Aos poucos, o cenário delineado pelas excelentes letras da banda, vai se fechando, saindo do lugar frio (mas bem iluminado) para um lugar onde até as chagas expostas ficam petrificadas. Apesar da quebra nas aparências, porém, o banquete continua.

As peças poéticas apresentadas pela banda se refletem no conteúdo musical. É difícil que alguém que (como eu) conhece pouco de teoria musical dê uma explicação aprofundada dos motivos apresentados neste disco. Entretanto, podemos ficar com as palavras do próprio guitarrista do Oxbow, Niko Wenner: “Fui inspirado por peças como as Variações Goldberg, compostas por Bach, onde uma pequena ideia se transforma e se expande para formar uma peça musical permeado do potente perfume dos pequenos elementos.”
Parece complexo – e é mesmo. Ao ouvirmos mais este passo na evolução composicional do grupo, somos constantemente desafiados por uma música de motivos que são quebrados apenas para serem repetidos ou remodelados. Como a resenhista Zoe Camp disse, em sua resenha do site Pitchfork: “[neste disco, Eugene S.] Robison levanta seus vocais como veículo para a desordem e a transcendência […]. Ele não conta com a música, mas canta contra ela” [1].
A brutalidade instrumental não deve ser empecilho para percebermos estes detalhes, mas um adendo pulsante e inquietador para nossa entrada na beleza caótica do chamado “rock de vanguarda”.
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Oxbow (“jugo”, em português) é uma das bandas mais díspares do cenário mundial do rock vanguardista. Passaram por diversas gravadoras alternativas e conseguiram ser uma banda ímpar em todas elas. Isto vem desde o início da banda, formada em São Francisco (Califórnia, Estados Unidos) no ano de 1988, quando eles começaram a experimentar com suas prévias passagens em bandas punk e chamaram a atenção do público e da crítica.
Formação principal deste álbum:
Dan Adams – baixo
Greg Davis – bateria e percussão
Eugene Robinson – vocais
Niko Wenner – guitarras, vocais, teclados, composição, etc.
SAIBA MAIS:
1. Resenha de Zoe Camp no site “Pitchfork” 👉 neste link [em inglês]
2. Como bem mostra esta entrevista no site “Veil of Sound” 👉 neste link
[em inglês]
3. Resenha de Sean Guthrie no site “The Quietus” 👉neste link [em inglês]
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