The Money Store – Death Grips (2012)

É complicado falar de uma banda que dispara tantos sentidos numa música, em tão pouco tempo, que parece que as coisas não têm sentido nenhum. Olhar para as músicas do projeto musical Death Grips é se deixar perder num mar de referências bizarras – pelas associações e pela obscuridade. Na verdade, há certos momentos em que não é preciso fazer mesmo sentido, o que, talvez, tenha sido calculado pelos músicos presentes no grupo. Diante do que eu disse antes, a palavra “calculado” não parece se encaixar muito bem, mas creio que haja alguma justificativa para eu pensar assim. Eis que eu a lanço aqui: Death Grips é, antes de tudo, um produto da era da internet. Sim, digo isso, sem ter grandes certezas.
Pensemos, pois, em como o humor da internet e das redes sociais foi se modificando até se tornar algo extremamente particular. Pense nos últimos “memes” (se é que ainda se utiliza esta palavra) que você viu e na quantidade de referências para as quais estes “memes” apontam. Pois é justamente esta colagem de significados que cai como uma luva ao som, às letras e à estética do álbum sobre o qual falamos aqui. Ouça a faixa “The Fever”:
O aspecto rebelde da banda é parte essencial do que faz eles serem tão conhecidos mundo afora. Mas é precisamente a necessidade de distinção que faz com que eles não se percam numa multidão de projetos semelhantes que aparecem com velocidade nas redes. As letras niilistas e o estilo frenético permitem que a banda seja apreciada por ouvintes vindos dos mais diversos gêneros, sempre encontrando uma referência, ainda que pequena, nas canções.
Cada música aparece como se quisesse fazer você cair com um ataque epilético, rendido para as energias que seu próprio cérebro já não pode mais controlar. Desde a forma como o frontman MC Ride se locomove nos vídeos e nas apresentações até a energia com que Zack Hill e Andy Morin tocam, fica clara a necessidade de fazer você não perder o foco no que eles estão fazendo ou dizendo. Juntando-se isto com a constante sede por novidade que nos fez chegar aos “conteúdos” de 15 segundos nas redes sociais, temos a banda perfeita para o cenário perfeito.

“Aquele clique quente de um tiro. Nunca desamarrado, com uma Glock em língua engatilhada”. Estas são palavras da música “Hustle Bones” (ossos agitados), a quinta faixa do registro explora delinquência e paranoia de uma forma tão esquisita que parecem um mundo espelhado da nossa própria realidade – ou um mundo piorado, é difícil dizer. Tudo para os Death Grips é exagerado, é elevado à enésima potência apenas para ser quebrado pelo que vem em seguida. Capitalismo, crime, violência, depressão, religião… Nos temas em que eles tocarem, certamente haverá uma potenciação.
Agora, que existe um padrão nisso, não existem dúvidas. E o fio condutor está sempre nas referências e alfinetadas que a banda faz à cultura da internet – especialmente as de fóruns dos Estados Unidos. Nós, aqui do Brasil, de onde escrevo, temos nossas particularidades mesmo no ambiente virtual, mas também temos semelhanças suficientes para nos reconhecermos nos climas densos retratados por MC Ride. A brutalidade sonora, porém, não indica que estamos tratando de um mar de rosas, na verdade, muito pelo contrário. Death Grips encarna, aqui, toda a acidez alucinada e alucinógena que a sociedade norte-americana pode produzir para seus integrantes e seus integrados.
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Formada em Sacramento (Califórnia, Estados Unidos) no ano de 2010, a banda Death Grips se utiliza da base no hip hop para experimentar com todo tipo de coisa, especialmente o rock e a música de vanguarda. Suas letras tratam dos assuntos mais diversos e reciclam músicas de todas as eras por meio de samples, desde o seu registro de estréia – o Exmilitary de 2011.
Apesar da dificuldade na rotulação e da complexidade musical, ferve no projeto o espírito das bandas de “noise rock” e “no wave”. Em outras palavras, não espere grandes padrões musicais aqui que não sejam uma forte convergência para o sarcasmo. The Money Store, de 2012, foi o primeiro álbum oficial do grupo, concebido como uma sequência direta da mixtape de 2011. O resultado foi (e continua sendo) aclamação de público e crítica.
Formação principal deste álbum:
MC Ride – vocais e letras
Zach Hill – percussão, produção e letras
Andy Morin – teclado, produção e letras
SAIBA MAIS:
1. Matéria recente do “The Guardian” sobre colaboração com a cantora Björk 👉 neste link [em inglês]
2.Resenha do conhecido YouTuber “Antony Fantano” sobre o álbum, iniciando um dos memes mais reproduzidos quando se começa a pesquisar sobre a banda 👉 neste link [em inglês]
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