(Des)Concerto

Sim, são músicas muito estranhas. Bem, (des)culpe qualquer coisa! – 22/05/2023 (Dom.)

Slide – George Clanton (2018)

Falamos sobre coisas estranhas antes, mas agora vamos a um disco que mais tem a ver com nostalgia que com o tema anterior. Ou será que poderíamos enxergar alguma estranheza ou bizarrice vinda do nostálgico? É possível, uma vez que os tempos não são dos mais notáveis no quesito “moda”. Não sei se me explico, mas insiro aqui outra ideia que parece também não ter muita explicação: minha impressão, às vezes, é de que os anos 80 venceram. Quando me refiro aos “anos 80”, me refiro a uma ideia geral que ficou na minha mente por anos de consumo de filmes daquele período, no qual se iniciaram os passos na simplificação musical dos grandes hits, as cores e os produtos ficaram mais vibrantes, o capitalismo foi dominando o mundo para lá da “Cortina de Ferro” e diversas obras distópicas começaram a apontar no sentido de um futuro mais solitário, ainda que tecnológico.

E cá estamos nós, cercados com nossas máquinas, que, agora, tem até a capacidade de calcular textos e fingir que conversam como nós mesmos fazemos. É claro que não pretendo, aqui, fazer uma invectiva contra a tecnologia, uma vez que ela traz muitos benefícios. Você mesmo lê este texto por conta disso. No meio de toda essa piração de coisas que venho pensando e expondo aqui, ainda existe um ar profundamente nostálgico e refrescante nos anos 80, algo que foi fabricado no inconsciente daquele período e passado para o nosso inconsciente. E lá no fundo emerge de um mar de contradições o som de “Livin’ Loose”:

Livin’ Loose – George Clanton

“Eu não quero viver e perder”. Assim, Clanton nos inicia na jornada pelo álbum em que ele abraça motivos mais voltados para o rock e o subgênero deste, o dream pop. Não quero entrar em detalhes sobre isto agora, mas, vale observar uma coisa que me chamou bastante atenção: note o clima melancólico que a música de Clanton consegue produzir no ouvinte. Talvez você não sinta isto, afinal a percepção musical pode variar muito. Entretanto, a ênfase na profundidade dos instrumentos e na busca por uma queda para tons mais baixos após a maior parte das frases musicais é algo digno de nota – e que vai permear a melancolia pelo disco inteiro.

Precisamente aí é que o meu delírio do começo do texto retorna: a melancolia foi típica do rock dos anos 80 (vide todo o universo do post-punk) e se alastrou pelos Estados Unidos na década seguinte (basta lembrar da geração influenciada pelo Grunge ou as mesclas com um estilo mais gótico). George Clanton (nascido em 1988) é, em termos históricos e formativos, fruto desta passagem de tempo e se hoje abraça o movimento “vaporwave” é precisamente pela capacidade que este estilo tem de criar mesclas instigantes e tão profundas que são capazes de abafar o entorno do ouvinte e imergi-lo numa rede de ideias nostálgicas e idílicas. A questão, porém, é: por que a melancolia tão forte nas músicas?

O forte colorido oitentista contra o despojamento guitarrístico dos anos noventa.

O clipe de “Dumb” é um dos fatores mais interessantes neste sentido, ao trabalhar a imagem de Clanton como uma figura deslocada e ao mesmo tempo inerte diante de seu deslocamento perante o mundo. Também a faixa “Tie Me Down” reforça isso, em seus versos: “Eu não sinto quando você me machuca pra valer / Tudo o que eu sinto é que eu gosto disso”. Esta poderia ser apenas uma música sobre um romantismo possessivo e doentio, mas, considerando as escolhas estéticas e tonais, é bem difícil não notar que a coisa vai para algo além disso. Vai, mas não chega. Porque, como o próprio movimento “vaporwave”, grande parte do que se produz aí fica no limiar de ser algo grandioso e descartável. Existe sempre um apontar de caminho, mas nunca uma chegada efetiva.

Neste sentido, a música é sempre uma viagem, ainda que seja repleta de inconstâncias. A melancolia, porém, permeia todo o registro, mesmo na repetição de temas como os de “Make it Forever”. Todas as composições aqui evocam uma contraditória grandiosidade em coisas efêmeras – como as roupas que vestimos agora, como as identidades sociais que tentamos criar para nós diante dos outros, ou mesmo como a nossa necessidade de retornar para uma época completamente idealizada de um momento já idealizado por outra pessoa.

Os anos 80 venceram hoje. Venceram quando The Weekend se tornou o artista mais ouvido das plataformas digitais e séries como Stranger Things se tornaram extremamente populares… Mas e amanhã? Faremos algo diferente, ou estamos fadados a “repetirmos isto para sempre”?

Make it Forever – George Clanton

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Nascido na Virgínia (Estados Unidos) em 1988, George Clanton é um dos expoentes do chamado movimento “vaporwave”, subgênero da música eletrônica que agrega diversas influências do passado num amálgama de referências que só a era da internet poderia produzir. Lançou registros sobre outros nomes (como Mirror Kisses e ESPRIT 空想) até estrear com seu primeiro registro sobre nome próprio, o álbum 100% Electronica, lançado em 2015.

Este debut também serviu como inspiração para o nome de sua gravadora e do festival 100% ElectroniCON – iniciado em 2019 em parceria com diversos artistas, incluindo sua namorada, a famosa Negative Gemini. Slide é seu segundo disco, em que são agregadas ainda mais influxos do rock e do shoegaze.



Créditos neste álbum:
George Clanton – composição, gravação e produção
Brian Hamelman – capista



SAIBA MAIS:


1. Matéria do site “The Fader” sobre o festival “100% ElectroniCON” 👉 neste link [em inglês]

2.Resenha de Miles Bowe sobre o disco, no site Pitchfork👉 neste link [em inglês]

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