Olorum – Mateus Aleluia (2020)

Uma das coisas mais curiosas que creio não ter dito aqui comento agora: há certos discos que crescem em qualidade conforme também se eleva o volume em que são escutados. Me refiro, obviamente, a ondas sonoras e tal afirmação (aqui inédita) pode ser facilmente justificada pela influência que o disco Olorum conseguiu exercer sobre meus ouvidos. Escutar cada canção num volume normal ou baixo é uma experiência agradável, mas inconclusa. Basta um aumento no direcional sonoro e temos evocações espirituais muito mais efetivas e graves muito mais robustos tomando conta das orelhas do ouvinte.
Naturalmente, vem uma sensação de felicidade e um sorriso no rosto ocasionado por faixas como “Amarelou”, a terceira do disco:
Mateus Aleluia é um dos músico veterano do cenário da música brasileira. Poderia eu dizer que suas influências da cultura africana são evidentes, mas isto seria falar em trivialidades – o que é, indiretamente, incorrer em bobagem e os leitores que cá vem não esperam este tipo de coisa, creio. Digo, pois, que este nosso grande artista parece, por si só, querer abarcar toda a africanidade possível entre Brasil e o nosso continente originário. As referências estéticas do som e do disco não se esgotaram nas minhas diversas audições e creio que o mesmo se sucederá com você que aqui me lê.

Para a infelicidade deste caríssimo leitor que tanto estimo, porém, não creio que eu seja um autor capaz de elucidar o que digo com “não se esgotar” quando falo das referências trazidas por Mateus Aleluia e os músicos parceiros no disco. Ocorre que ninguém neste registro está apenas fazendo uma simples participação, mas entrando numa verdadeira consonância espiritual e representativa do que há de mais belo na união entre a nossa música e a música centro-africana, entre o nosso português e os termos em iorubá – entre tantas outras referências que já na capa impõem-se.
Esta ausência de esgotamento que o disco me provoca talvez não seja novidade para alguém que esteja completamente inserido num mundo no qual eu não estou e me encontro apenas como um observador admirado das constelações musicais que por mim passam. Esta cultura é de Mateus, é sua e também é minha, esta própria cultura, bem… esta cultura eu não conheço e quanto mais busco conhecer mais percebo que tenho caminhos a percorrer. Rola entre pessoas que se apercebem disto um sentimento profundo de envergonhamento. Não sei o que você acha, mas eis aí o que ocorre comigo quando me deparo com culturas tão enormes e tão próximas.
Felizmente, para este que escreve, hoje conheço bem mais do que quando tracei aqui algumas linhas sobre outro disco deste mesmo artista. E é justamente este conhecimento um pouquinho mais aguçado que já me traz mais profundas e precisas emoções ao ouvir faixas como “Filho de Rei”. Convido você também a fazer este mergulho de conhecimento e espero que o volume forte dos tambores e violões seja capaz de imergir seus ouvidos nas suas ondas graves:
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Nascido em 1943 na cidade de Cachoeira (Bahia), o brasileiro Mateus Aleluia ficou conhecido ao longo dos anos ’60 e ’70 por ter feito parte de um dos grupos essenciais da música brasilera, Os Tincoãs. Em 1983 mudou-se para Angola, de onde voltou com as afluências musicais que aqui contemplamos, fruto de um profundo trabalho de pesquisa cultural. Regresso ao Brasil em em 2002, seu primeiro disco de volta foi Cinco Sentidos (2010). Olorum é o seu terceiro registro em carreira solo, contando com a colaboração de valiosos artistas da contemporaneidade de nossos sons.
Formação principal deste álbum:
Mateus Aleluia – cordas e vocais
Pastoras do Rosário – vocais
Lenna Bahule – part. especial (vocais)
Ze Nigro – baixo
Mauricio Fleury – guitarra
Lello Bezerra – guitarra
Decio Sete – atabaques e xerequê
entre outros.
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