Vama – Creptum (2020)

Após conhecer a banda Vazio, tive o prazer de acompanhar indicações musicais do vocalista, Renato Gimenez, gravadas para o programa “Shuffle”, do Canal Scena [1]. Uma das descrições que mais me chamou atenção foi a da banda Creptum, com seu disco Vama, o qual eu imediatamente fui conferir. Após um bom tempo ouvindo este álbum, posso dizer com clareza que eu não estava preparado para a profundidade da jornada oferecedia por estes músicos. Logo de primeira, tive a certeira impressão de estar ouvindo um trabalho no qual corriam as melhores inspirações do que foi produzido pelo estilo black metal.
Conforme minhas audições se estenderam, percebi que havia algo mais ali, um toque bastante particular da banda, seja pela escolha das melodias ou pelo conceito do disco que, aos poucos, foi se desvelando para mim. A primeira faixa que ouvi, que peguei na indicação do “Shuffle” foi precisamente “Reborn In Darkness”. Este single da banda, por si só, já nos apresenta muito bem o conceito do álbum, ainda que a ideia seja mais e mais expandida. Ouçamos as gélidas melodias e os mórbidos vocais do integrante Nebro:
A história de criação de “Vama” já é algo bastante revelador para que possamos compreender um pouco do conceito do disco. Escrito a várias mãos, o conteúdo harmônico e lírico do registro é um verdadeiro atestado de diversas influências a se confrontarem para a criação de uma síntese. Esta síntese entre polos fortes surge no álbum já por meio de sua estética: a mão da deusa Escarlate projetando-se na vermelhidão enquanto deixa sua sombra em destaque, como se seu lado sombrio também ganhasse vida própria na sua presença. Também a tipografia, tão abstrata quanto primal, presa pela cor dourada, que também está presente no clipe da faixa que acima reproduzimos.
No clipe, as cores estão mais dessaturadas, pois a batalha do eu-lírico se dá na escuridão, mas, conforme passamos as faixas do disco, vamos clareando um pouco melhor o caminho ao qual a banda quer chegar – ainda que, como veremos, a conclusão não funcione (nem queira funcionar) como uma resposta simples a ouvintes sedentos… pelo contrário.

Durante um bom tempo, como gosto de fazer com certos registros, acabei apenas ouvindo “Vama”, sem me deixar influenciar por letras ou pesquisas paralelas. Apenas tentei apreciar a obra e seus tons realmente cativantes. Já aí, mesmo não tendo grandes conhecimentos musicais, minha experiência me guiou a perceber que havia algo mais sendo proposto por aquelas melodias – esperadamente brutais, mas surpreendentemente atmosféricas. Chegamos então ao conceito do disco, sobre o qual traço aqui algumas linhas: tudo gira em torno de um ritual de transformação.
O eu-lírico se debate em um mar de forças e contradições para emergir como um novo ser, um ser dotado de liberdade. E é nesta liberdade que o disco termina, sem um indicativo ou um norte. Nesta desorientação, temos uma conclusão, mas nenhuma explicação óbvia, nenhuma exposição desnecessária. Pensado e composto desde o lançamento do registro anterior da banda, “Vama” se inspirou na filosofia indiana para trazer na deusa Kali uma visão daquilo que os compositores do álbum almejam – algo expresso diretamente no título, a palavra que representa o lado esquerdo da filosofia tântrica. Falar nestes integrantes, aliás, me faz observar o quão impressionante é a energia aqui canalizada por cada músico. Em minhas pesquisas, pude notar que a banda passou por dificuldades para manter a formação e, ainda assim, conseguiram entregar um trabalho excelente como este.
“Vama” não é fruto de mero acaso, mas da contribuição direta de energias de pessoas que estiveram em dificuldades materiais e espirituais, mas tiveram de vencer tudo isto para nos entregar uma pérola do black metal mundial. “Nos entregar”? Relendo agora parece estranho, especialmente quando a postura da banda é a de fazer música apaixonada para si próprios. Faria mais sentido dizer que eles entregaram sua música para o mundo. E nós, sim, é que fomos atraídos para este vórtice. Nota-se, pois, que não há acaso nas mãos da deusa Escarlate.
Kali,
Devouring Mother – Creptum
Demands lifes,
Kali,
Crushing bones and bodies.
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Formada em 2003 na cidade de São Paulo, a banda Creptum logo se firmou como um dos grandes nomes do black metal brasileiro. Enfrentando as dificuldades impostas pela cena da música extrema, a banda passou por diversas mudanças de formação e alguns períodos de hiato [2]. Entretanto, a partir destas intempéries, o conjunto sempre entregou trabalhos de alto nível.
Seu primeiro álbum, “Of Lies, Curses and Blood” saiu em 2016, sendo bastante elogiado por sua pegada que unia influências modernas a mais tradicionais. Em “Vama”, seu disco mais recente (de 2020, lançado pela Drakkar Productions), eles buscaram inspiração na cultura indiana como eflúvio para construir um álbum que é produto de diversas mãos. Desde a arte da capa às composições, o registro vem chamando atenção por unir brutalidade e melodia com grande naturalidade e experiência.
Formação principal deste álbum:
animus atra – bateria
t. aversvs – baixo
nebro – vocais e guitarra
deimous nefus – guitarra.
Todas as músicas por CREPTUM
Earth, Reborn in Darkness, VAMA e On My Skin por Tanatos
Devouring Mother por Corvo
156, The Moon Above and Revolution Within por Bast
SAIBA MAIS:
>>> Instagram da banda 👉 neste link.
1. Acompanhe o vídeo mencionado 👉 neste link.
2. Entenda melhor a trajetória da banda na entrevista para o site “Rock Vibrations” 👉 neste link.
Ouça no YouTube

+duas faixas
1. A Chegada a Marte – André Fricks
Com letra bastante reflexiva e uma melodia sinuosa, André Fricks nos conduz por novas paisagens musicais que ele vem explorando. Esta música marca também o retorno do projeto Randre Mystic, uma importante iniciativa que já exploramos por aqui e busca levar o rock psicodélico a outro nível. “A Chegada a Marte” é fruto de conversas que o artista teve com um amigo e inspirações trazidas de pesquisas em história e ficção científica. Uma baita música para observarmos nosso futuro!
2. I Love Rock ‘N’ Roll – The Jesus and Mary Chain
‘É no mínimo curiosa a minha relação com a banda Jesus and Mary Chain, mas creio que não seja possível entrar em detalhes agora. Na verdade, já falamos sobre a banda aqui em outras ocasiões (basta acompanhar tag 👉 neste link). Mesmo assim, acabo acompanhando a discografia deles aos poucos – o que para muitas pessoas que me leem pode parecer um completo absurdo. É que há certos artistas cuja música você pode deixar crescer dentro de si com bastante tranquilidade, sem pressa. Este é o caso da banda, uma das melhores que já ouvi.
Mesmo no comum os caras conseguem surpreender: nesta faixa, em especial, a ironia é o destaque. Fruto das brigas entre os dois irmãos da banda, a música é um contraponto a “I Hate Rock ‘N’ Roll” e mantém firme a acidez da banda – que, no fundo, é a acidez da nossa própria vida, sejamos ou não estrelas do rock.’É no mínimo curiosa a minha relação com a banda Jesus and Mary Chain, mas creio que não seja possível entrar em detalhes agora. Na verdade, já falamos sobre a banda aqui em outras ocasiões (basta acompanhar tag 👉 neste link). Mesmo assim, acabo acompanhando a discografia deles aos poucos – o que para muitas pessoas que me leem pode parecer um completo absurdo. É que há certos artistas cuja música você pode deixar crescer dentro de si com bastante tranquilidade, sem pressa. Este é o caso da banda, uma das melhores que já ouvi.
Mesmo no comum os caras conseguem surpreender: nesta faixa, em especial, a ironia é o destaque. Fruto das brigas entre os dois irmãos da banda, a música é um contraponto a “I Hate Rock ‘N’ Roll” e mantém firme a acidez da banda – que, no fundo, é a acidez da nossa própria vida, sejamos ou não estrelas do rock.
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E acabamos por aqui. Agradeço a você que ficou até aqui e espero que algo nesta postagem tenha feito sentido para você. Tenha um ótimo dia!
E até a próxima! 👋😊

